[quote="Alex"]
Relativamente ao programa Erasmus, (...) não entendo como é que gajos burros que nem uma porta, com 10 cadeiras em atraso, vão para fora e quando voltam tem tudo feito com grandes notas...

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é fácil de entender para quem esteve lá fora: As cadeiras são dadas como deve ser, com material, com sebentas organizadas, com horários decentes...que te dão hipótese de estudar, analisar, contemplar a matéria... e ainda teres tempo para arrumar a casa, passear, sair à noite...
Vejamos como são "distribuídas" as 40h/semana:
- em portugal tive sempre uma carga horária de aulas superior a 26h/dia de aulas, mais de metade teóricas... essas teóricas eram para despejar matéria, os professores não fazem sebentas, alguns nem os acetatos que passam na aula disponibilizam... as aulas são secas de despejo de matéria, de forma absolutamente teórica, sem qualquer espaço para intervenção dos alunos...duravam 2 a 3 horas, sendo seguido por OUTRA sessão de 2 ou 3h de outra matéria... ao final da 3º hora, o café era a única coisa que mantinha os olhos abertos... e por vezes não chegava.
O resto do tempo (as tais 15h/semana), dividido pelas 8 cadeiras, dará menos de 2h/cadeira... considerando que cada cadeira, em média, deve ser dedicado 4h, então essas 15h passam a 30h/semana dedicado ao estudo pessoal... logo, a semana passa a 55h/semana...
...A juntar a este, mete-se os trabalhos de grupo e/ou individuais que consomem cerca de 2h por cadeira, por semana... o que já dá nas contas uma semana com mais de 70h/semana.... ou seja, 15h/dia...
...ora, se devemos, para além disto tudo:
- Dormir (pelo menos) 6h/dia
- Almoçar e jantar, 2h/dia
- Cuidar da vida pessoal, da casa, roupa... 1h/dia
...é impressão minha ou isto já vai em 26h/dia?
No tempo que resta depois disto tudo, podemos:
- socializar
- dedicarmo-nos aos hobbys, desporto, etc
...
Depois temos a época de exames:
- reúne em menos de um mês os exames de 6, 8, 10 cadeiras distintas... Como aluno, porque o espaço de tempo era curto, fazia opções: dedicava-me a alguns capitulos, na esperança de serem esses que o exame fosse sobre essa matéria. Às vezes corria bem, outras não...
...e num país como o nosso, onde as temperaturas em julho atingem os 30º, onde o calor torna complicado ter a cabeça fria para estudar... temos que estar agarrados aos livros praticamente até agosto, sem poder aproveitar esse bom tempo...
- Na Suécia, onde fiz Erasmus, tinha 8h/aula por semana... Entendia-se que os alunos não devem ir para as aulas para "ler matéria", mas que esta deve vir estudada e as aulas devem ser para discussão dessa mesma matéria, apresentação de casos práticos onde aplicar a teoria estudada, etc...
Foi complicado assimilar esta forma, já que, como hábito, fui para as primeiras aulas de caderno na mão pronto a "escriturar" tudo o que se dizia, mas nada estava a ser despejado... Mas rapidamente percebi como as coisas funcionavam, tive um professor muito atencioso que me ajudou bastante (espera, um professor ajudar? que coisa estranha!)
...acabei por me integrar bastante bem, habituar-me a ler os capítulos todos antes da aula, para naquelas 2h fazer-se um debate construtivo! Fora disso, para além da leitura (100 a 200 páginas/dia), fazer análises de casos, entre outras rotinas de estudo que se provaram ser bastante eficientes...
Conseguia intercalar os estudos com outras actividades, tanto que integrei a rádio da associação académica, todas as noites dava uma voltinha, fazia desporto diariamente...
O resultado disto? a motivação era bastante boa, a dedicação era total, a paixão pelo estudo apareceu-me... coisa que nunca me tinha acontecido (!) As notas não só subiram como foram excelentes, os meus trabalhos receberam louvores... no entanto recebi uma série de críticas, nomeadamente o meu excesso de zelo pelas apresentações, encadernações, alinhamentos, etc...
"Para que é que estás a perder tempo com este cuidado todo com a apresentação, se o que importa é o conteúdo"? Se te apetecer até podes entregar isto escrito a lápis(!)
...depois os exames... ai os exames... Sim, muuuuito mais puxados que os nossos! 4 ou 5h a despejar tudo o que é possível e às vezes o tempo não chegava!!!
Mas também... vamos muuuito mais preparados para eles! Toda a matéria está devidamente assinalada, sabes exactamente o que estudar antes do exame, se assim o quiseres!
Isto é nos exames "normais"... Porque também havia os exames 24h:
Tens uma tarefa a fazer, o enunciado é-te entregue ás 15h de um dia... tens até às 15h do dia seguinte para entregar. Na prática, é um exame de consulta, mas que o estás a fazer fora.
Obriga-te a organizares os teus apontamentos, notas, bibliografia... Podes até entrar em contacto com os colegas e trocar ideias... mas o enunciado não é igual para todos, e mesmo sendo igual, ou lhe dás o cunho pessoal, ou focas em coisas diferentes, ou se forem semelhantes demais, é zero para ambos...
É uma maratona de pensamento, mas que te dá uma "pica" descomunal: ganhas "estofo" para nos momentos em que um prazo tá curto, te organizares de forma a entregar algo realmente bem feito!
Mas em vez de termos um mês intensivo de exames... As cadeiras duram 2 meses, só tens duas cadeiras de cada vez. O exame é feito no final desse período, és testado, és aprovado e segues para a disciplina seguinte! Na prática, tens dois exames a cada dois meses. Isto permite-te manter a rotina de preparação para os exames, ao contrário do que cá se passa, com exames a cada 6 meses, todos de uma assentada.
Podes dedicar-te a todos os capítulos da disciplina, sem precisar de fazer o dito sorteio que se faz em Portugal...
Esta especialização e dedicação permite-te aprofundar muito mais do que o habitual, dá-te capacidade de consolidar os conhecimentos todos... e se a disciplina não for aquilo que esperavas, ou não gostaste... não há problema! Não existem, tal como cá, currículos "fixos"... és tu que escolhes o teu currículo, do qual podes optar por uma série de opções diferentes, desde o primeiro ano... no final tens é que obrigatoriamente ter "N" cadeiras do grupo "X" para transitares de ano.
As notas? é muito métrico! "o Exame é feito para 20... respondeste a tudo, respondeste bem... 20... não há discussão possível..." Não há cá orais de defesa, nem nada que se pareça. O que há é "se queres ser um aluno do quadro de honra, podes ter que fazer uma oral para o provares"... mas o quadro de honra é um título honorífico, não conta para as notas....
...Os professores são avaliados pela forma como dão as aulas e pela taxa de sucesso dos alunos...e essa avaliação tem um peso enooorme na "nota" do professor, assim como a "sebenta"... se um professor tem uma taxa de reprovação superior ao normal expectável, é recomendado a alterar os padrões, a forma de leccionar...
Se mesmo assim a cadeira não melhora, a disciplina é retirada do currículo, sendo absorvida pelas outras. Reabre depois com um novo professor e um novo plano curricular.
Pode parecer um bocado bruto, mas a verdade é que resulta: os professores têm um compromisso de excelência que cumprem... por isso o efeito não é "facilitar a passagem" mas sim "facilitar a aprendizagem"...
Outra coisa importante: o ano começa a 1 de Setembro e acaba a 15 de Junho!
Não há mais nada entre esse período: os jovens são motivados a terem trabalhos de verão, desde cuidar de pessoas idosas num lar, limpeza de florestas... até estágios de verão em empresas, onde podem aplicar os conhecimentos adquiridos durante o ano... Estes estágios duram 2 meses, são óptimos para as empresas não só para compensar a força laboral durante as férias, mas também para porem à prova os alunos, terem ideias novas na empresa, habituar os jovens a saber para que serve tudo aquilo que estudaram... E no fim do curso, os empresários já testaram os potenciais empregados... as contratações são muito facilitadas, muitos são os que já têm emprego garantido e ainda nem acabaram o curso!
A conclusão que tiro é que não é "mais fácil" no estrangeiro que cá... O que acontece é que consegues organizar-te muito melhor! O resultado está claramente nas notas de Erasmus que todo o aluno "médio" passa a "extraordinário" no ano em que está no estrangeiro...
Não sei se o sistema é totalmente melhor que o nosso, mas a verdade é que um curso de 3 anos tira-se em 3, um de 4 em 4 anos, e aí sucessivamente... os que tiram o curso nos anos estipulados, de uma assentada, são a excepção e não a regra.
Os alunos saem da universidade com uma compreensão do mundo do trabalho e com hábitos e rotinas que a maioria de nós não tem... São pontuais, fiáveis, eficientes... Nós saímos desenrascados, polivalentes, versáteis... mas tecnicamente fracos e pouco eficientes no trabalho.
Creio que um equilíbrio entre as duas formas seria o ideal para nós, portugueses. Há coisas muito boas que podemos implementar por cá que não perdíamos nada com isso! Mas é preciso que se alterem mentalidades e rotinas há muito consolidadas, que já mostraram que não são as mais adequadas...
edit: desculpem o testamento... mas depois de ter visto como é possível ser feliz e estudar ao mesmo tempo, revolta-me ver as macacadas que se fazem na
educação formação em Portugal... Temos tudo para conseguirmos ser BONS... mas parece-me a mim que o sistema implementado está feito para nos lixar a todo o custo, ao invés de nos ajudar... é uma sensação de "estado policial" em vez de "estado motivador"...